quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

27 de 93.

Acordei com o despertador e seu toque irritante, e minha mão jogando-o para longe. Minha cabeça doía, meu corpo pesava, tendia a me grudar na cama por mais algumas horas. Sentei na cama com dificuldade e bocejei enquanto meus pés tateavam o chão em busca de pantufas. Meus pés gelados agradeceram quando as encontraram. Lembrei-me, por ora, da noite passada, quando dormi observando as gotas furiosas da chuva batendo contra a minha janela e uma música lenta tocando no celular. Desviei o pensamento ao ver um casaco clamando pelo meu abraço enquanto trocava carícias com a cadeira de balanço. Ela mantém boas lembranças da minha infância, logo, eu a mantenho lustrada. A madeira brilhante apagou-se como numa tristeza súbita quando eu tirei de cima o casaco que a esquentava e dei-lhe o querido abraço. Cambaleei até o andar de baixo e enfiei a mão no bolso do casaco para pegar a chave e abrir a porta. Apertei-me no casaco quando o vento cortante atravessou a lã e esfriou meu coração. Baixei um pouco a cabeça e enfrentei o frio e a neblina - e a neve que cobria meu coque de cabelo, fazendo-me uma velhinha de setenta anos - para encontrar meu jornal diário na caixa de correio. Não encontrei jornal, não encontrei folhetos de propaganda, sequer imãs de geladeira. Encontrei um papel dobrado em dois e que parecia amarelado. Peguei-o e corri para dentro, para onde o ar condicionado me salvaria. Não era só um papel velho, era também uma carta antiga com letras tortas que me pareciam conhecidas. Bufei de frio - e de raiva por lembranças que reativaram-se sem pedir na minha mente - e comecei a ler.


Você sabe que eu não tenho sido um bom pai, aliás, nunca fui, mas o que venho lhe pedir por esta é de suma importância. Peço, de antemão, que me perdoe por tudo, eu nunca quis te deixar, mas eu era idiota demais para perceber o que perderia. Que perderia alguém tão importante. Te amei de longe por muitos anos, França. Quis mais que tudo poder te pegar no colo e te chamar de filha, quis que tivesse meu sobrenome e quis, contudo, te ver crescer. E te ver ser o sucesso que és. Comprei todos os teus exemplares, sabia? E posso certificar-te de que nunca chorei como quando li "Os cinco segredos" sobre você. E martirizei-me por saber que um deles era eu. Eu sofri muito com a escolha que fiz, muito mesmo, mas aprendi com isso. Foi um erro, eu fui um erro, e naquele momento pensava que você também fora. Você deve saber... Bom, deixei sua mãe grávida aos quinze anos, eu não tinha cabeça nem cacife para um filho, mas nada é desculpa, certo? Então, eu viajei para onde nunca me encontrariam e passei a minha vida toda trabalhando em uma empresa que ameaçava falir a cada dia que passava. Eu sonhava com você, com uma neném correndo pela casa e puxando minha camisa quando eu chegava do trabalho, pedindo para ser levada para tomar sorvete. Nos meus sonhos você gostava muito de sorvete, mesmo em dias frios. Eu nunca fui feliz, não sabendo o que eu tinha feito. E eu sabia que não poderia voltar atrás, você não me aceitaria e eu continuaria infeliz. Eu tive outra escolha, mas dessa vez eu não tinha duas opções. Eu escrevi essa carta para pedir que não seja como eu, que não seja fria como diz que é, para que seja a menina que me pede sorvete, para que seja como uma menina que tem pais. Eu precisava tentar me comunicar antes de ir... Fiquei sabendo do falecimento de sua mãe. Quero que saiba que apesar do meu erro fatídico, eu a amava muito e foi muito difícil para mim também, imagino como tenha sido para você. Ah, minha menininha, eu queria poder fazer tudo diferente, mas não posso voltar atrás.


Último dia de Noah Williams, 27 de maio de 1993.


Meus braços, assim como minhas pernas, frouxaram, fazendo-me cair sentada no chão, atônita. Era sua última carta, seu último dia, sua primeira e última comunicação comigo. Não haveriam outras, não haveria mais França, não haveria mais Noah, não haveria pai e filha. Seria tudo como antes? Seria eu a mesma congelante companhia de meus cadernos rabiscados e canetas mordidas? Seria eu, a mesma? Não consegui conter as lágrimas, as lágrimas que expulsavam com força toda aquela raiva, toda aquela falta, aquele machucado, para fora. Sem mais pensar, abri a porta e, ignorando o frio intenso - e minhas mágoas -, corri até o portão para ver se o enxergava. Um homem miúdo caminhava em passos rápidos e curtos dentro de um casaco preto, como quem fugia de algo. Abri o portão e fui correndo até ele, mas ele parecia estar sumindo da minha visão. Parei de correr e fiquei olhando-o misturar-se com a neblina até o fim. Virei-me e voltei para meu aconchego, pronta para preparar um café.

Nenhum comentário:

Postar um comentário